O tapete vermelho

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 26 de maio de 2016.

Estender o tapete vermelho é uma expressão que traz à mente a sensação de que alguém importante está a chegar. O tapete vermelho é a passarela dos eminentes, dos honrados, dos homenageados; ele define, por assim dizer, o merecimento de quem pisa em sua superfície.

Mas, como acontece com todas as coisas positivas deste mundo, o governo petista também conseguiu deturpar o conceito de tapete vermelho. Em vez de estendê-lo para honrar os merecedores, o governo Dilma o fez para encobrir falcatruas e rombos quase incalculáveis. A presidente impedida era como um glutão estabanado, daqueles que vê uma mesa cheia à sua frente e não consegue parar de comer e de derrubar restos e migalhas ao seu redor. E sua equipe de governo era como os faxineiros preguiçosos da casa, varrendo os restos caídos para debaixo do enorme tapete vermelho da desonra. Bastou entrar um novo inquilino para perceber duas coisas: o tapete já estava alto, de tanta sujeira varrida para debaixo dele; a casa estava cheirando à podridão, por conta da porquice sem fim da turminha do PT.

Há muitas metáforas que podem ser usadas para o finado governo. Podem ser comparados a ratos que invadiram a despensa das finanças públicas, a inquilinos de péssimo caráter que ocuparam a casa do povo brasileiro, a ganhadores da loteria que gastaram pensando que o dinheiro jamais acabaria, ou a crianças mal-educadas que se lambuzaram com o pote de doce roubado do vizinho. Mas nenhuma delas conseguirá passar o estado real de coisas ao qual nosso país foi submetido. Para isso seriam necessários muitos anos de investigação, devassas minuciosas nas contas públicas do período e uma força-tarefa que nem todas as empresas de consultoria do mundo, juntas, talvez conseguissem fazer.

Michel Temer, na impossibilidade de realizar tudo isso, começa seu governo com boas medidas objetivas de governança. Começa, na verdade, a fazer o que qualquer administrador mediano faria: limitar as despesas para tentar sair – um dia, quem sabe, num futuro distante – do cheque especial. A aprovação da nova meta fiscal para 2016 pelo Congresso Nacional mostrou que o novo governo entende que o dinheiro do Estado não nasce em árvore e não é infinito; as críticas feitas por políticos da nova oposição mostraram que PT, PCdoB, PSOL et caterva continuam acreditando em Papai Noel e em Saci Pererê.

Em outra frente, o novo governo tenta recuperar o terreno perdido na diplomacia. Parece que José Serra está disposto a deixar uma marca incisiva na condução das relações exteriores. Não acredito ainda que possamos nos livrar de vez do Mercosul, mas tê-lo devidamente colocado no ostracismo é algo que consigo enxergar sob a gestão de Temer. Com um pouco mais de otimismo dá até para crer que alguém na nova equipe terá a ideia brilhante de tentar um tratado comercial com o maior parceiro econômico do planeta, os “estadunidenses imperialistas”, como diria aquele seu professor de história boçal. Talvez seja bom se Serra tiver umas conversas com o pessoal da Colômbia, do Peru e do Paraguai, que já entenderam que o Mercosul está para os tratados comerciais assim como o Esperanto está para os idiomas em uso.

Quanto ao tapete, Temer terá de comprar um novo. Tem manchas que simplesmente não saem mais, nem com aqueles produtos miraculosos do 1406. A sujeira dos governos Lula e Dilma só tem um destino viável: o aterro sanitário.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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Uma pedra chamada Dilma

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 19 de maio de 2016.

Poucos dias depois da eleição de 2014, sofri com dores terríveis na região lateral lombar. Após uma tomografia e algumas radiografias, o diagnóstico foi de pedras no rim. Algumas pedras pequenas e uma bem grande, de 7 milímetros, alojada no rim direito. O médico brincou, disse para eu dar um nome para a grandona. Eu levei a brincadeira a sério e lhe dei o nome de Dilma.

Dilma me acompanhou desde então, causando muita dor e desconforto. Ela me fez voltar cinco vezes ao hospital, me fez urinar sangue e suar frio, e me impediu de trabalhar por vários dias. Dilma me fez gastar um dinheiro que eu não queria ter gasto, me fez perder um tempo precioso, me desequilibrou nos dias de dores mais fortes e acabou trazendo sofrimento para toda a minha família. Ninguém aqui em casa queria a Dilma, ninguém fez nada para colocá-la na posição em que estava, mas mesmo assim ela continuou implacável, com um único objetivo em sua vida de pedra: nos prejudicar.

Com o passar dos meses, Dilma foi descendo. Saiu do rim e começou seu trajeto rumo à excreção. No meio de 2015 ela estava a 7 centímetros da bexiga. O médico recomendou o que todos recomendam para expelir uma pedra desse tamanho: tomar muita água, água em quantidades diluvianas. O duro é que eu não gosto de beber água. Gosto de Coca-Cola, suco de maçã, limonada, chá gelado, vinho, Gatorade, mas água mesmo eu peno para beber. Assim, minha falta de atenção à recomendação médica fez com que Dilma demorasse muito mais para fazer seu trajeto.

Chegamos a maio de 2016, e Dilma aprontou mais uma. Passei o final de semana com dores fortes, e fui novamente ao médico. A famigerada está na curvinha do ureter, pertinho da bexiga. Ela fez um longo caminho de descida desde que foi alçada ao posto de presidente das minhas dores, e agora está a um passo de sofrer o impeachment deste corpo. Num esforço final para obter todos os votos, estou bebendo mais de 5 litros de água por dia. É um negócio brutal, você tem que ir ao banheiro uma vez por hora, tem que ingerir mais líquidos que um camelo no Saara, mas tenho certeza de que terá valido a pena quando eu finalmente vir Dilma a caminho do esgoto. Na verdade, eu até gostaria de castigá-la mandando-a descarga abaixo, mas o médico disse que preciso capturá-la para estudos, pois assim podemos saber como evitar a formação de futuras Dilmas.

E assim segue a votação apertada em meu corpo. Até o momento não conseguimos todos os votos de que precisamos, mas temos uma nova articuladora em campo, a excelentíssima tansulosina. Ela promete alargar os caminhos para que Dilma possa sair mais facilmente. Tem seus possíveis efeitos colaterais, mas ainda prefiro um remédio imperfeito a uma dor perfeita. De acordo com o médico, se isso não funcionar teremos que tentar algo mais invasivo e mais complicado, uma explosão a laser através de cirurgia, o tipo de golpe revolucionário que não gostaria de ter em meu organismo.

Assim, estou na torcida e na confiança de que minha Dilma sairá em breve. Cheguei a desanimar por um tempo, até que me disseram que uma outra Dilma, a de um caso bem mais grave que o meu, acabou saindo depois de muito esforço e paciência. É com essa esperança que termino este artigo. E peço licença, pois preciso beber mais água.

PS: A pedra saiu às 20h40 de quarta-feira, 18 de maio de 2016.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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A presidente de Schroedinger

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 12 de maio de 2016.

O físico Erwin Rudolf Josef Alexander Schroedinger, ganhador do prêmio Nobel de Física em 1933, ficou famoso fora do contexto acadêmico por um experimento virtual chamado de “O Gato de Schroedinger”, um paradoxo que ele inventou para tentar explicar o problema da mecânica quântica aplicada à vida diária, em objetos e seres de dimensões não subatômicas.

Ele descreve o experimento da seguinte maneira: uma caixa fechada, dentro da qual há um gato, um detector de radioatividade e um frasco de veneno. Há também um mecanismo que, se ativado pelo detector de radioatividade, quebra o frasco de veneno, que por sua vez mata o gato. Schroedinger dizia que, usando a interpretação quântica de Copenhagen, como não se pode saber se surgirá ou não uma partícula radioativa a ser detectada, o gato deveria ser considerado vivo e morto ao mesmo tempo, num estado ambíguo. É claro que bastaria abrir a caixa para saber se o real estado do gato, e o experimento fictício foi uma maneira de Schroedinger criticar a interpretação de Copenhagen. Mal sabia ele que seu experimento seria comprovado no Brasil de 2016.

Temos hoje a presidente de Schroedinger, a morta-viva do Planalto. Graças a seus incansáveis companheiros de crime, Dilma vai tentando se manter no poder com manobras jurídicas e com ameaças de violência. No front jurídico ela conta com a defesa de José Eduardo Cardozo, o advogado-geral da União que se transformou em advogado pessoal de Dilma Vana. O homem que deveria defender a União passou a desempenhar o papel preferido dos políticos petistas: advogado de porta de cadeia – Better call Cardozo. No front da violência, ela conta com os bandidinhos de sempre: MST, MTST e sindicalistas pelegos. Como lhes falta coragem para um embate realmente violento e armado, esse pessoal acaba queimando pneus em rodovias, agredindo gente indefesa e tumultuando a vida do cidadão comum. Estão mais para mosquitos do que para leões.

Voltando a Schroedinger, se nosso gato é a presidente, nossa caixa é Brasília. O veneno já conhecemos, mas em nosso caso ele pode ser chamado de remédio ou de impeachment. O mecanismo, esse é mais complicado… Câmara, Senado, STF, todos fazem parte desse processo intricado que ativa o veneno e mata o gato. Olhando Brasília de fora, fica realmente a impressão de que a presidente está morta e viva ao mesmo tempo. Mas, basta fazer um furinho na caixa para perceber que ela já partiu desta para a melhor (ou pior, dependendo de Sérgio Moro).

A turma do PT age como uma criança que não suporta perder. Aliás, escrevendo isso, lembrei-me claramente de um episódio de infância que cai muito bem como ilustração. Estávamos em cinco amigos, todo mundo na faixa dos 12 anos de idade, jogando War em minha casa. Um dos garotos estava prestes a ser eliminado – só lhe restava a Austrália. Quando ele viu uma miríade de exércitos inimigos acumulados em Sumatra e Bornéu, percebeu que não resistiria à próxima rodada, arrancou o tênis do pé e jogou em cima do tabuleiro. Voaram pecinhas para todo lado, e tivemos que começar de novo (sem ele, é claro) porque ninguém conseguia lembrar onde estavam os exércitos de cada um. Tivesse ele jogado um punhado de cocô no tabuleiro, a analogia seria perfeita.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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A lista do adeus

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 5 de maio de 2016.

Este colunista espera, do fundo do coração, que esta seja sua última coluna sob a presidência de Dilma Rousseff. Afinal, o plenário do Senado deverá votar pela abertura do inquérito contra a pior presidente deste canto da galáxia amanhã, dia 6 de abril, e a oposição tem todos os votos de que precisa para afastar a presidente por 180 dias (ou, em outras palavras, para sempre).

Assim, achei de bom tom elencar um pouco do que esse governo fez de ruim para o Brasil, caso alguém ainda pense que poderá sentir saudades. Com vocês, minha lista do adeus:

A expressão “mãe do povo” – esperamos que a mãe e o pai do povo (sim, estou falando daquele criminoso que não tem o dedo mindinho) sejam condenados e presos, e que o povo aprenda que é melhor ser órfão do que ser filho do Estado;

O PAC – em vez de acelerar o crescimento, esse grande programa de loteamento de obras superfaturadas para políticos e empresários corruptos só freou ainda mais a economia brasileira. Finalmente terá seu fim, pois o próximo presidente dificilmente manterá algo que foi vendido como o grande feito da então ministra Dilma;

Kátia Abreu – maior decepção política dos últimos anos, a senadora lambe-botas da atual presidente será finalmente defenestrada do governo. A oportunista de Tocantins terá bastante tempo para refletir sobre o que é escolher estar do lado errado da história. Sorte dela não precisar de uma bomba atômica na cabeça para isso;

Mais Médicos – será um grande alívio para os brasileiros de bem quando o governo parar de enviar dinheiro para um ditador sanguinário através deste programa de fachada. O Mais Médicos foi um dos maiores absurdos deste governo, uma imoralidade, uma vergonha para o Brasil;

O Itamaraty Vermelho – com a saída do PT do governo, ressurge a esperança de que nossa diplomacia volte a priorizar as relações com os países livres e democráticos e pare de desperdiçar recursos e de sujar nossa reputação com o apoio a ditadores pelo mundo afora;

Nunca antes na história deste país – que bom será nunca mais ter que ouvir a frase “nunca antes na história deste país” e nem comparações ridículas do tipo “mais do que nos últimos 500 anos”;

MST – embora esta organização criminosa esteja longe de ser extinta, só o fato de não poderem mais entrar e sair do Planalto quando bem entenderem, fazendo o governo de capacho, já é uma evolução. E ainda há a esperança de que o novo governo aperte o cerco e pare de financiar esses vagabundos que invadem terras produtivas e destroem centros de pesquisa de agricultura e pecuária;

Blogueiros chapa-branca – sem o financiamento do governo petista, centenas de blogueiros chapa-branca deixarão de mamar nas tetas do Estado e finalmente terão de arrumar um emprego digno, um que não inclua defender criminosos e exaltar ditadores (a não ser, é claro, que consigam uma vaguinha na Folha);

Discursos sem pé nem cabeça – finalmente estaremos livres da vergonha internacional que é ver Dilma Rousseff falando em público. Será um adeus aos cachorros ocultos, às mandiocas exaltadas, aos dentifrícios retornantes e a tantas outras expressões nunca antes utilizadas por um presidente da república na história deste país e deste planeta. Pensando bem, este último ponto fica tanto como positivo como negativo, pois perderemos uma fonte inesgotável de diversão e comédia.

Enfim, Dilma já vai tarde, tarde demais. Ela sai deixando o país na pior recessão da história e protagonizando aquele que é considerado o maior escândalo de corrupção do mundo moderno. De todos os recordes que ela poderia quebrar, escolheu os piores. Dilma Rousseff, não sentiremos saudades de você.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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País da fantasia

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 28 de abril de 2016.

tatuNo ano de 2011, houve uma série de explosões de bueiros na cidade do Rio de Janeiro. As explosões, na verdade, começaram dois anos antes, mas foi em 2011 que elas ganharam notoriedade na mídia, por causa do aumento no número de casos e dos feridos em sua decorrência.

Em dezembro de 2014, o menino Gabriel Martins de Oliveira Alves, de 2 anos, morreu depois de ser esquecido trancado dentro de um carro. O caso aconteceu em Vicente de Carvalho, zona norte do Rio de Janeiro, e trouxe à tona um problema grave, que tem tirado a vida de muitas crianças.

Qual é a relação entre bueiros explodindo e crianças esquecidas em carros? Normalmente, nenhuma. Mas, como normalidade não é o ponto forte do Rio de Janeiro, e nem do Brasil, os ocorridos acabam tendo muito a nos ensinar sobre a mentalidade que pauta as ações do Estado brasileiro, em todas as suas esferas.

Comecemos pelos bueiros. Em qualquer cidade brasileira, eles estão sob responsabilidade da Secretaria de Obras, e esta se encontra debaixo da administração do prefeito. Assim, como se costuma dizer nas empresas privadas, o problema tem um dono; no caso, o dono era Eduardo Paes. Um prefeito se assemelha, muitas vezes, a um presidente de empresa, no sentido de que deve assumir a responsabilidade por tudo o que acontece em sua organização – ele é louvado pelas coisas boas e cobrado pelas ruins, recebe o bônus do lucro e o ônus do prejuízo –, ainda que não tenha participação ativa em cada ato individual de setores, departamentos e empregados. Ou seja, se um bueiro explodiu e o prefeito ficou sabendo pelos noticiários, é dele o papel de reunir as pessoas certas e tomar medidas para que o problema seja sanado o quanto antes. Mas qual foi a atitude de Eduardo Paes, depois que o número de bueiros explodidos passou para dois dígitos? Se você pensou em “ele colocou suas equipes para trabalhar exaustivamente, contratou os melhores engenheiros e o problema foi resolvido”, está errado. Em janeiro de 2012, Eduardo Paes sancionou uma lei que proíbe o estacionamento de veículos sobre bueiros, ou “o bueiro pode até explodir, mas se pegar no teu carro a culpa não é minha, pois eu já te proibi de estacionar em cima dele”.

Vamos agora ao terrível caso do pequeno Gabriel. As investigações mostraram que ele tinha sido deixado no carro por uma criminosa, Cláudia Vidal da Silva, que fazia transporte escolar irregular e deixou o menino no carro para fazer as unhas em um salão de beleza. Qual foi o papel do Estado neste caso? Certamente, deveria ter sido o de processar e prender Cláudia, para que ela fosse punida por esse homicídio na medida da lei. Mas não foi isso o que aconteceu, pelo menos até agora. Passaram-se mais de dois meses até que Cláudia fosse indiciada; ela enfrentará, algum dia, um julgamento em tribunal, e não terá passado nem uma hora sequer na cadeia até que, eventualmente, seja condenada. Se condenada, terá diversas brechas jurídicas para permanecer o menor tempo possível presa; afinal, se até Suzane von Richthofen conseguiu passar ao regime semiaberto depois de assassinar os pais, não deve ser difícil para Cláudia fazer o mesmo.

Mas, para não decepcionar o público, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro resolveu agir. A repercussão do caso levou o deputado Tio Carlos a propor um projeto de lei, já aprovado em segunda discussão, que garantirá que os bebês fluminenses estejam finalmente salvos e seguros (aviso que estou sendo irônico): o projeto pretende obrigar todos os estabelecimentos públicos e privados a alertar motoristas a não deixarem crianças trancadas dentro de veículos estacionados – como se Cláudia não soubesse o que estava fazendo quando escolheu deixar uma criança de 2 anos no carro enquanto cuidava de sua “emergência” pedicural. Quem não alertar será multado. O projeto aguarda a sanção ou o veto do governador.

E assim caminha o Brasil, o país onde o “a culpa não é minha” está legislado e institucionalizado. Um país onde bandidos não usam armas porque sua venda é proibida, onde as pessoas não morrem de hipertensão porque os restaurantes não podem colocar sal na mesa, onde crianças são salvas por cartazes e onde bueiros deixam de explodir porque ninguém estaciona sobre eles. É praticamente o país da fantasia. Só falta o Tatu.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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Deputado sem votos

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 21 de abril de 2016.

No ano de 2010, o humorista, palhaço, cantor e compositor Francisco Everardo Oliveira Silva, mais conhecido como Tiririca, foi eleito deputado federal pelo estado de São Paulo. Não foram poucos os que classificaram sua eleição como uma das maiores vergonhas da política brasileira ou como a bizarra evidência de que o eleitor realmente não sabe votar. Tiririca teve a maior votação para o cargo de deputado federal do país naquela eleição, e a segunda maior da história das eleições brasileiras – seus 1.353.820 votos o colocaram atrás apenas de Enéas, que em 2002 conseguiu a marca recorde de 1.573.112 votos.

jeanwyllysNaquele mesmo ano, concorreu também um outro novato da política, um indivíduo cujo feito mais notável tinha sido a vitória na quinta edição do programa Big Brother Brasil, e que teve exatamente 13.018 votos. Graças à legislação eleitoral brasileira, e sua regra de proporcionalidade (esta, sim, uma bizarrice das grandes), Jean Wyllys de Matos Santos foi eleito deputado federal pelo estado do Rio de Janeiro com a menor votação entre todos os eleitos de seu estado, e com a menor votação proporcional do país.

Tremenda injustiça é apontar Tiririca como o grande absurdo das eleições de 2010. Está claro que é Jean Wyllys. Ele teve apenas 0,96% dos votos de Tiririca, ou seja, daria para eleger mais de 100 Jeans com a votação de um Tiririca. O total de votos para deputado estadual no Rio de Janeiro foi de 7.454.543; ou seja, Jean teve 0,17% do total de votos de seu estado (isso significa 17 indivíduos em cada 10 mil pessoas). A título de comparação, a média de votos para alguém se eleger vereador na cidade de São Paulo é de 44.065; dos 56 vereadores eleitos em 2012, 55 tiveram mais votos que os 13.018 de Jean. A quinta edição do programa Big Brother Brasil, da qual Jean foi vencedor, registrou audiência média de 47 pontos. Um ponto de audiência, de acordo com o Ibope, corresponde a 38.621 domicílios na região metropolitana do Rio de Janeiro. Considerando que em cada domicílio duas ou três pessoas estejam na idade de votar, e extrapolando os dados para o restante do estado, chegamos a uma estimativa de 150 mil pessoas assistindo ao programa e acompanhando as estripulias do então aspirante a político. Nem 10% delas quiseram votar no sujeito.

A votação de Jean foi tão baixa, mas tão baixa, que todos os seus eleitores caberiam no Templo da Glória do Novo Israel, da Igreja Universal do Reino de Deus, na cidade do Rio de Janeiro; é mais fácil encontrar uma pessoa com um olho de cada cor que um eleitor de Jean; o número de votos de Jean Wyllys está para o total de votos de seu estado assim como uma bola de gude está para uma bola de basquete; se você deitar os eleitores do Tiririca numa linha reta, pés de um na cabeça do outro, dá para ligar o Rio de Janeiro a Manaus; se fizer o mesmo com os eleitores de Jean, não dá para chegar nem a São João do Meriti.

Mas, infelizmente, a eleição desse deputado foi apenas o primeiro de uma série de episódios lamentáveis envolvendo sua pessoa. Uma vez diplomado, Jean trabalhou incessantemente para estabelecer uma agenda de ódio, seguindo à risca o modo de operação de seu partido, o PSol. Contradição ambulante que é, Jean apresentou projetos de lei absurdos como o 1.780/2011, em que propõe a obrigatoriedade do ensino da tradição islâmica nas escolas brasileiras. Como levar a sério uma pessoa que tacha qualquer opinião contra a homossexualidade como homofobia e, ao mesmo tempo, propõe a obrigatoriedade do ensino de uma cultura que assassina homossexuais pelo simples fato de o serem? Jean consegue ver a intolerância estampada em um pastor que diga que uma relação homossexual é pecaminosa, mas aplaude uma cultura que não só afirma isso, mas pune o “pecador” com a morte.

Parece que Jean não tem realmente a capacidade cognitiva para entender o mundo e a história. Ele é um conhecido admirador de Che Guevara, o messias da esquerda latino-americana, mesmo sabendo que Che odiava homossexuais. Em seu livro O Socialismo e o Homem de Cuba, Che propôs um modelo de perfeição viril que condenava por completo a homossexualidade, a bissexualidade e a transexualidade. Além disso, há diversos relatos de execuções de homossexuais sob seu comando, e diversos episódios descritos no livro Mea Culpa, de Guillermo Cabrera Infante. Um deles foi a visita de Che à embaixada cubana na Argélia: ao ver que o embaixador tinha uma obra do poeta Virgilio Piñera em sua estante, ele atira o livro na parede e diz “Como é que você pode ter o livro dessa bicha na embaixada?”. Uma outra parte do livro dá uma ideia precisa do que era ser gay na Cuba revolucionária: “Um departamento especial da polícia, chamado de Esquadrão da Escória, se dedicara a deter, à vista de todos, na área velha da cidade, todo transeunte que tivesse um aspecto de prostituta, proxeneta ou pederasta”.

Em seu trajeto de contradições e incitações ao ódio, Jean encontrou no deputado Jair Bolsonaro seu nêmesis. A estratégia de concentrar suas ações sobre alguém com muito mais notoriedade e muito mais votos deu resultado: Jean conseguiu multiplicar sua primeira votação pífia por um fator de dez quando se reelegeu em 2014. A cusparada em direção a Bolsonaro durante a votação do impeachment, no último domingo, corrobora esta tese. Fosse um ato de impulso, já seria condenável e absurdo. Premeditadamente, como mostra um vídeo disponível nas redes sociais, é certamente caso para o Conselho de Ética da Câmara.

Em tempo, o deputado Tiririca deu um dos 367 votos favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff e participou de 100% das sessões parlamentares. Mais importante: ele nunca exaltou ditadores assassinos e não precisou dos votos de outro candidato para se eleger. Por tudo isso, sou obrigado a dizer: mais Tiririca, menos Jean.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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O custo G

Artigo publicado na Gazeta do Povo de Curitiba, seção Opinião, coluna Flavio Quintela, em 14 de abril de 2016.

Na semana que passou tive algumas experiências interessantes aqui nos Estados Unidos, que me levaram a esta reflexão. Elas aconteceram nos quatro dias em que estive numa feira de negócios, na Califórnia. Dentre elas destaco duas:

Durante a feira, não tínhamos toda a linha de produtos disponível para entrega imediata. Assim, ficamos de fazer o envio dos materiais faltantes para diversas pessoas, e nenhuma delas pediu nem sequer um comprovante de pagamento ou de compra. Elas apenas entregavam seu cartão de visita e pediam que a entrega fosse feita naquele endereço;

Na segunda noite, fomos jantar depois do fechamento da feira, e acabei levando minha mala com computador, produtos e recebimentos em dinheiro do dia, pois fomos diretamente ao restaurante. Jantamos, conversamos, pagamos e voltamos para o hotel, e só então lembrei de minha mala com tudo aquilo dentro. Voltei correndo ao local, já acometido de um certo desespero, e encontrei a mala exatamente no mesmo lugar, intocada.

Viver em um lugar onde a honestidade é muito mais regra do que exceção é muito bom. Você chega ao supermercado, informa que o caixa passou um pacote de cereal a mais na sua conta, e ninguém duvida de você; apenas devolvem o seu dinheiro, pois a sua palavra conta. Um grande amigo meu, em viagem recente a Orlando, deixou a carteira e o celular em cima do carro enquanto arrumava as filhas no banco de trás, e saiu dirigindo sem perceber. Dois quilômetros depois, se deu conta de que estava sem o celular e voltou ao hotel para refazer o caminho. Encontrou três carros de polícia parados, dois policiais na rua e uma terceira que veio ao seu encontro.

“Bom dia, policial, acho que perdi meu telefone por aqui; deixei em cima do teto do carro e deve ter caído.”

“Achamos este celular, que deve ter se espatifado na queda. É o do senhor?”

“É este mesmo. Muito obrigado!”

“O senhor não perdeu mais nada junto com o celular?”

“Não que me lembre.”

“Tem certeza?”

Nesse momento ele passa a mão no bolso e percebe que está sem a carteira.

“Pensando bem, não estou achando minha carteira.”

“Quanto dinheiro o senhor tinha nela?”

“Uns US$ 1,8 mil.”

“Nós tentamos pegar todas as notas que voaram quando sua carteira caiu. Por favor, confira se falta alguma coisa.”

Estava tudo lá.

Uma sociedade em que existe o que se chama de “confiança básica” é uma sociedade de benefícios, do ganha-ganha, da sinergia. A falta de confiança básica, como os brasileiros bem sabem, gera dissabores, aborrecimentos, retrabalhos e custos. É a assinatura que precisa ser reconhecida em cartório, é o documento de transferência do carro que precisa ser assinado na frente do escrivão, é a escritura que precisa ser registrada – os cartórios brasileiros consomem um dinheiro inútil, que poderia ser empregado em algo produtivo se não fosse a falta de confiança generalizada em vigência no Brasil. Mas não é só isso: golpes e furtos constantes destroem o pouco de confiança que resta em parte da população, alimentando ainda mais essa estrutura de múltiplas verificações e autenticações.

Se fosse possível somar todos os recursos que vão parar nas mãos do Estado – em todas as suas esferas – com tudo o que é gasto pela ausência de confiança básica, e também com as despesas relativas à infraestrutura precária de nosso país, creio que descobriríamos que mais de 70% de tudo o que produzimos vai parar no lixo. Esse é o custo G, o custo da aplicação sistemática e constante da Lei de Gérson na política e na vida diária. É o custo do egoísmo, da mentira e da desonestidade. É o custo do cada um por si e todos contra todos.

E, para não deixar em branco, este colunista quer registrar que estará torcendo pelo impeachment de Dilma, domingo que vem, mais do que torceu pelo Palmeiras na final da Libertadores de 1999.

Flavio Quintela é escritor, jornalista e tradutor. É autor dos livros “Mentiram (e muito) para mim” e Mentiram para mim sobre o desarmamento”.

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